Encarnação, Plano Encarnatório e o que estamos fazendo aqui…

esquecimento após encarnação
Quando encarnamos, frequentemente nos esquecemos do nosso passado.

A encarnação é a expressão temporária do Espírito [1] no plano material. Entretanto, o Espírito, quando encarnado, não manifesta todo o conhecimento que carrega em si (ou o corpo físico não aguentaria), o que acarreta, de modo mais evidente, em esquecimento das vivências anteriores. Quando perguntados os Espíritos entrevistados por Allan Kardec sobre o porquê do esquecimento do passado quando encarnamos, eles responderam que “pelo esquecimento do passado, ele [o Espírito reencarnado] é mais ele mesmo” [2], ou seja, livre das recordações, o Espírito encarnado consegue recomeçar uma prova sem que as lembranças afetem negativamente suas tomadas de decisão.

Planejamento da encarnação
Sim, antes de encarnar seus passos aqui foram minuciosamente planejados. Será que você está seguindo seus planos?

O cérebro físico atua como uma antena para as potencialidades que o Espírito decide expressar na matéria. Quando prepara o seu plano encarnatório – ou tem o plano preparado, em caso de encarnação compulsória – o Espírito elege as características potenciais que expressará, dentre aquelas características que seu Espírito já apresenta a partir do conteúdo adquirido em outras experiências, visando a execução do que foi planejado. As potencialidades são neutras, no sentido de não serem nem boas, nem más, e elas serão colocadas em prática conforme as escolhas feitas pelo Espírito no decorrer de sua encarnação. Na prática, essas potencialidades, juntas, formam as características específicas da personalidade como: tendência a ser mais ou menos organizado, maior ou menor afinidade por adquirir determinados conhecimentos, tendência a acúmulo, capacidades mentais, vários graus de abertura mediúnica, extroversão ou introversão, habilidade com linguagem e pessoas, etc. Uma vez encarnado e em posse das características de personalidade, o indivíduo tem a possibilidade de colocar o que foi planejado em prática.

Notem que as características da personalidade são manifestadas como potencialidades, ou seja, elas podem ser utilizadas ou não para contribuir com a harmonia do Todo. Por exemplo, alguém que encarna com uma habilidade de comunicação pode usar essa característica para informação ou manipulação das pessoas. A característica é a mesma; entretanto, as escolhas que esse indívíduo faz ao fazer uso dela é que vai diferenciar os resultados.

Filtro
Esquema simplificado mostrando como as potencialidades do Espírito se expressam através do corpo físico. Entre o Espírito e nosso corpo físico há uma espécie de “filtro” preparado para deixar passar somente aquelas potencialidades previamente estabalecidas no plano encarnatório.

Para ficar mais claro, façamos uma separação entre o que seria o Espírito e o que seria o corpo físico, mas sem entrar em detalhes, neste momento, sobre os corpos sutis que unem um ao outro. O Espírito é a parte imaterial que carrega em si a soma das experiências vivenciadas em todas as encarnações anteriores, na Terra ou não. Porém, a soma das encarnações não forma o todo do Espírito, pois este não é material, não sendo, portanto, quantitativo. O Espírito apenas é. Enquanto encarnado (ou em processo intermediário), o Espírito está. É na encarnação que ele manifesta a sua sabedoria – ou o modo com que conecta seus conhecimentos para colocá-los em prática. Esse caráter do Espírito independe das lembranças racionais que poderia apresentar de outras experiências encarnatórias. Já o corpo físico é um veículo temporário que o Espírito usa para manifestar-se no plano material.

Quando encarna, o Espírito tem um objetivo; seja ele expiação, prova ou missão – no caso da Terra. Para atingir seu objetivo, ele faz um planejamento encarnatório. Nesse planejamento, o Espírito considera detalhadamente os passos necessários para realizar aquilo a que se propôs: onde nascerá, a educação que receberá, as pessoas com quem conviverá e como será a relação com elas, o tipo de trabalho que realizará, locais-chave por onde deve passar durante sua existência, provas a resistir, vicissitudes a vivenciar, etc. Tudo bem planejadinho, conforme o objetivo desejado no final e a sua capacidade para colocar os planos em prática.

sabedoria
A sabedoria que nosso Espírito carrega vai determinar as tarefas que ele tem a executar no plano meterial.

Para que construa os meios para atingir seus objetivos, o Espírito precisa de ferramentas. Essas ferramentas são apresentadas como características potenciais a serem expressas pela personalidade do encarnado, manifestadas dentre todas as características que o Espírito já carrega em si. A capacidade de realizar todo esse planejamento é proporcional à sabedoria que o Espírito possui. Quanto mais conhecimento o Espírito tem sobre os mecanismos de funcionamento das engrenagens da existência, mais liberdade ele tem de planejar sua encarnação – uma vez que o livre-arbítrio se encontra diretamente relacionado ao conhecimento. E é aqui que entra a beleza de todo esse processo. O encarnado usa as ferramentas que expressa para manifestar tudo aquilo que carrega em essência.

 

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As características de personalidade são como ferramentas que devemos utilizar para construir nossa encarnação.

Munido de um planejamento encarnatório e das  ferramentas, ou potencialidades a serem manifestadas, o Espírito encarna. E não se lembra – objetivamente – de nada. Entretanto, mesmo que, aparentemente, o Espírito encarnado não se recorde de todo o planejamento feito, ele mantém seu caráter e sua sabedoria e são eles que vão direcionar as escolhas a serem feitas durante a encarnação. Além disso, todas as potencialidades expressas no plano material são pensadas para que, quando utilizadas conforme o planejado, transformem-se nas ferramentas necessárias para que o Espírito realize os planos feitos antes da encarnação. Quando o Espírito encarna com objetivo de prova ou expiação, a sabedoria será colocada à prova em situações específicas ou será construída a partir de realizações pontuais para equilíbrio de contravenções do passado, respectivamente. Já em encarnações missionárias, sua sabedoria será utilizada para realização de tarefas de construção coletiva, visando a evolução da humanidade.

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O autoconhecimento é essencial para descobrirmos o que afinal estamos fazendo aqui e organizarmo-nos para executar aquilo que nos propusemos.

Mas como garantir que o plano encarnatório será realizado com êxito? Eu digo que a chave para chegar a essa resposta é o autoconhecimento. O passo inicial é conhecer o motivo de estar encarnado. Para isso, uma autoanálise é essencial. Conhecer as potencialidades que está expressando enquanto encarnado é de grande valor. Saber as dificuldades também. Olhar em volta e identificar-se a partir daquilo que atrai por sintonia é um excelente exercício de autoconhecimento. Olhar para si independentemente do mundo externo também. Cada filosofia comprometida com a libertação do Espírito munindo-o de conhecimento tem sua técnica. Uma delas é a meditação, associada à disciplina é um ótimo exercício de autoanálise.

A segunda parte mais importante da caminhada é a descoberta do motivo de estar encarnado. Esse passo mostra o mapa do caminho por onde o Espírito encarnado deve percorrer para chegar ao seu objetivo. Porém, a parte mais importante é trilhar o caminho! Realizar aquilo que foi planejado. Colocar o plano em prática; esse é o tesouro! Só assim todo o tempo e energia gastos para a descoberta do mapa do tesouro vai ter valido a pena. Cada encarnação bem-sucedida é um bloquinho a mais para a construção da ponte que atravessará o abismo da ignorância.

Cada encarnação é uma etapa para a construção da sabedoria que o Espírito carrega em si. Todo o conhecimento acumulado e expresso precisa ser direcionado para que sua utilização prática ocorra em uma direção construtiva para si e, consequentemente, para o mundo à sua volta.  Uma garantia de caminho a ser traçado que seguramente atingirá um objetivo satisfatório é basear as decisões a serem tomadas nas encruzilhadas da vida nos mapas já desenhados pelos grandes mestres que passaram pelo planeta (Jesus de Nazaré, Krishna, Buda, Lao Tsé, Sócrates, etc), usando seus exemplos como inspiração.

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Por dentro de um relógio. Cada engrenagem precisa funcionar adequadamente para que o relógio funcione de maneira correta.

No final, todo o esforço será recompensado com a satisfação de ter executado mais um trabalho bem feito e com a aquisição de mais uma gotinha d’agua para o oceano da sabedoria. E não se engane. Não para por aí. A construção é contínua. A realização satisfatória de um plano encarnatório é só mais uma de tantas outras. A etapa seguinte é mais trabalho, mais construção de planos, mais realizações. Cada encarnação é apenas um etapa das muitíssimas que o Espírito tem a percorrer para chegar ao seu objetivo. Assim como cada encarnação tem um objetivo, a jornada que o Espírito percorre também tem. Assim como cada potencialidade que o Espírito encarnado expressa é uma potencial ferramenta para a construção do plano encarnatório, cada encarnação é uma potencial ferramenta para a construção do objetivo de evolução do Espírito. Como se cada Espírito tivesse um caráter próprio e um papel estabelecido na movimentação das engrenagens do Todo.

Direcionar a encarnação de acordo com o seu planejamento só facilita sua realização, pois isso significa entrar em sintonia com a finalidade evolutiva do Espírito. Cada vez que o Espírito encarnado se direciona para realizar algo que seja divergente do seu plano encarnatório, desperdiça tempo e energia, pois foge dos planos maiores traçados para o objetivo evolutivo do Espírito, causando estagnação momentânea, até que retome o direcionamento planejado.

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Se todos trabalharem por um mesmo objetivo, o obstáculo pode ser movimentado com mutio mais facilidade. Na figura 1), as setas estão voltando suas forças cada uma para uma direção diferente, dificultando a movimentação do obstáculo cinza. Em 2), como a maioria das setas está direcionando suas forças para o mesmo sentido, o obstáculo pode ser empurrado com o esforço em conjunto.

Expandindo essa visão individual para um ponto de vista planetário, a evolução espiritual do planeta Terra só acontecerá quando todos, ou pelo menos a maioria, dos seus habitantes, encarnados ou não, direcionarem seus objetivos para seu desenvolvimento espiritual, ou seja, em cumprir seu papel na engrenagem do Todo. Se imaginarmos que cada indivíduo que direciona sua existência para aquele objetivo final do Espírito representa uma setinha apontada e fazendo força no sentido de evolução do planeta, seriam necessárias inúmeras setinhas voltadas para a mesma direção para impulsionar adequadamente o planeta para seu objetivo evolutivo – mais conhecido no meio Espírita como transição de provas e expiações para regeneração. E não adianta acreditar em “profecia do Chico Xavier” e torcer para que uma Terceira Guerra Mundial não aconteça até 2019 para que o planeta evolua, pois nada mudará se os habitantes da Terra não se conscientizarem da necessidade de uma mudança de direção das suas prioridades. Hoje, o nosso planeta é composto por bilhões de setas, cada uma voltada para uma direção diferente, quando não estão voltadas para a direção oposta àquela ideal para mover o planeta adiante. A fórmula para mudar a situação deveria ser simples: autoconhecimento e educação.

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No fina, o balanço das encarnações deve estar equilibrado.

A solução apresentada para o direcionamento da evolução do planeta não é um plano egoísta, onde cada um deve preocupar-se somente com o próprio caminho e autoconhecimento. A caminhada é sim solitária, mas não é isenta de cooperação. No fim da caminhada do Espírito por tantas encarnações, seus registros devem equilibrar-se em uma balança, que mostrará que as doses de auto realização e doação de si à realização alheia anulam-se, formando apenas um caminho intermediário. Atinge a sabedoria quem compreende que o Universo é uma grande engrenagem e que cada Espírito que o compõe é importante peça para seu funcionamento. As engrenagens não funcionam corretamente se uma única peça estiver desalinhada.


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[1] Doutrinas filisóficas ou religiosas denominadas espiritualistas admitem a existência de algo além da matéria. Algumas delas, como o Espiritismo, são mais específicas quanto ao que seria esse “algo” que existe além do que os nossos sentidos físicos conseguem perceber. Pessoalmente, considero o Espiritismo a doutrina mais completa – e ao mesmo tempo sem complicações – com relação à descrição e explicação básicas sobre os fenômenos espirituais. Desconsiderando a institucionalização do Espiritismo e apropriação do conhecimento por alguns, a base dessa filosofia/religião, quando estudada sem a interferência dogmática de alguns pensamentos recorrentes, é bastante esclarecedora e confiável. Por isso mesmo, gosto de me basear na linguagem cunhada por Allan Kardec quando me refiro ao plano espiritual e suas manifestações aqui no plano material. O termo Espírito foi utilizado no texto com o mesmo sentido que aparece n’O Livro dos Espíritos.

[2] Allan Kardec. O Livro dos Médiuns. Questão 392.

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

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