Espiritismo e o Feminismo

igualdadeRecentemente, muito tem se discutido nas redes sociais sobre uma questão do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) que abordou um texto da filósofa francesa Simone de Beauvoir, cuja influência foi de grande importância para a existência do feminismo. Apesar da falta de informação mascarada de “minha opinião”, disseminada pelas marés de ignorância na superfície da internet, foi possível realizar incursões um pouco mais a fundo e presenciar discussões interessantes e esclarecedoras sobre o papel do feminismo em nossa sociedade. Indo ao encontro de todo esse debate, encontrei um texto de Allan Kardec, publicado originalmente na Revista Espírita, que me surpreendeu positivamente ao mostrar a opinião do codificador do Espiritismo, pautada na recém criada doutrina, sobre os direitos das mulheres.

Kardec
Allan Kardec: “(…) o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, como abre a da igualdade e da fraternidade.”

Sob o ponto de vista do feminismo de hoje, o texto contém trechos obviamente machistas, como quando ele fala que a Natureza criou o sexo feminino mais frágil. Entretanto, vale lembrar que Allan Kardec ainda era um homem sujeito às regras sociais da época em que viveu. Em seu texto, o codificador do Espiritismo aborda o ponto de vista de um homem, que viveu no século XIX, sobre a igualdade entre os sexos sob a ótica do plano espiritual. Vale lembrar que a importância do texto se dá pelo papel de reformador religioso e formador de opinião. Pontuando que seus textos são utilizados atualmente como base doutrinária de uma religião bastante difundida no Brasil. Além disso, é interessante notar como o ponto de vista de Allan Kardec, e, consequentemente do Espiritismo como um todo, sobre esse assunto, em 1866, era muito mais acolhedor e progressista do que a opinião de alguns religiosos de 2015.

Vamos ao texto publicado em janeiro de 1866 na Revista Espírita e traduzido por Salvador Gentile. Os grifos são meus.

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AS MULHERES TÊM UMA ALMA?

por Allan Kardec

As mulheres têm uma alma? Sabe-se que a coisa não foi sempre tida por certa, uma vez que foi, diz-se, posta em deliberação num concilio. A negação é ainda um princípio de fé em certos povos. Sabe-se a que grau de aviltamento essa crença as reduziu na maioria dos países do Oriente. Se bem que hoje, entre os povos civilizados, a questão esteja resolvida em seu favor, o preconceito de sua inferioridade moral se perpetuou no ponto que um escritor do último século, cujo nome não nos vem à memória, definiu assim a mulher: “Instrumento dos prazeres do homem”, definição mais muçulmana do que cristã. Desse preconceito nasceu sua inferioridade legal, que não foi ainda apagada de nossos códigos. Por muito tempo elas aceitaram essa escravização como uma coisa natural, tanto é poderoso o império do hábito. Ocorre assim com aqueles que, devotados à escravização de pai a filhos, acabam por se crer de uma outra natureza que seus senhores.

No entanto, o progresso das luzes ergueu a mulher na opinião; ela é muitas vezes afirmada pela inteligência e pelo gênio, e a lei, embora considerando-a ainda como menor, pouco a pouco afrouxa os laços da tutela. Pode-se considerá-la como emancipada moralmente, se ela não o é legalmente; é a este último resultado ao qual ela chegará um dia, pela força das coisas.

Leu-se recentemente nos jornais que uma senhorita de vinte anos vinha de sustentar com pleno sucesso o exame do bacharelado, diante da faculdade de Montpellier. É, diz-se, o quarto diploma de bacharel concedido a uma mulher. Não faz ainda muito tempo a questão foi agitada para saber se o grau de bacharel podia ser conferido a uma mulher. Se bem que isso parecesse a alguns uma monstruosa anomalia, reconheceu-se que os regulamentos sobre a matéria não faziam menção das mulheres, não se achando excluídas legalmente. Depois de ter reconhecido que elas têm uma alma, se lhes reconheceu o direito de conquistar os graus da ciência, é já alguma coisa. Mas a sua libertação parcial não é senão o resultado do desenvolvimento da urbanidade, do abrandamento dos costumes, ou, querendo-se, de um sentimento mais exato da justiça; é uma espécie de concessão que se lhe faz, e, é preciso bendizê-la, se lhes regateando o mais possível.

A colocação em dúvida da alma da mulher seria hoje ridícula, mas uma questão muito de outro modo séria se apresenta aqui, e cuja solução pode unicamente estabelecer se a igualdade de posição social entre o homem e a mulher é de direito natural, ou se é uma concessão feita pelo homem. Notamos de passagem que se essa igualdade não é senão uma outorga do homem por condescendência, o que lhe dá hoje pode lhe retirar amanhã, e que tendo para ele a força material, salvo algumas exceções individuais, no conjunto ele será sempre o superior; ao passo que se essa igualdade está na Natureza, seu reconhecimento é o resultado do progresso, e uma vez reconhecida, ela é imprescritível.

Deus criou almas machos e almas fêmeas, e fez estas inferiores às outras? Aí está toda a questão. Se ocorre assim, a inferioridade da mulher está nos decretos divinos, e nenhuma lei humana poderia transgredi-los. Ao contrário, criou-as iguais e semelhantes, as desigualdades fundadas pela ignorância e pela força bruta, desaparecerão com o progresso e o reino da justiça.

O homem entregue a si mesmo não podia estabelecer a esse respeito senão hipóteses mais ou menos racionais, mas sempre controvertidas; nada, no mundo visível, podia lhe dar a prova material do erro ou da verdade de suas opiniões. Para se esclarecer, seria preciso remontar à fonte, folhear nos arcanos do mundo extracorpóreo que ele não conhece. Estava reservado ao Espiritismo resolver a questão, não mais pelo raciocínio mas pelos fatos, seja pelas revelações de além-túmulo, seja pelo estudo que ele é capaz de fazer diariamente sobre o estado das almas depois da morte. E, coisa capital, esses estudos não são o fato nem de um único homem, nem das revelações de um único Espírito, mas o produto de inumeráveis observações idênticas feitas diariamente por milhares de indivíduos, em todos os países, e que receberam a sanção poderosa do controle universal, sobre o qual se apoiam todas as doutrinas da ciência espírita. Ora, eis o que resulta dessas observações.

As almas ou Espíritos não têm sexo. As afeições que as une nada têm de carnal, e, por isto mesmo, são mais duráveis, porque são fundadas sobre uma simpatia real, e não são subordinadas às vicissitudes da matéria.

As almas se encarnam, quer dizer, revestem temporariamente um envoltório carnal semelhante para elas a um pesado invólucro do qual a morte as desembaraça. Esse envoltório material, pondo-as em relação com o mundo material, neste estado, elas concorrem para o progresso material do mundo que habitam; a atividade que são obrigadas a desdobrar, seja para a conservação da vida, seja para se proporcionarem o bem-estar, ajuda seu adiantamento intelectual e moral. A cada encarnação a alma chega mais desenvolvida; traz novas ideias e os conhecimentos adquiridos nas existências anteriores; assim se efetua o progresso dos povos; os homens civilizados de hoje são os mesmos que viveram na Idade Média e nos tempos de barbárie, e que progrediram; aqueles que viverão nos séculos futuros serão os de hoje, mas ainda mais avançados intelectualmente e moralmente.

Os sexos não existem senão no organismo; são necessários à reprodução dos seres materiais; mas os Espíritos, sendo a criação de Deus, não se reproduzem uns pelos outros, é por isto que os sexos seriam inúteis no mundo espiritual.

Os Espíritos progridem pelo trabalho que realizam e as provas que têm que suportar, como o operário em sua arte pelo trabalho que faz. Essas provas e esses trabalhos variam segundo a sua posição social. Os Espíritos devendo progredir em tudo e adquirir todos os conhecimentos, cada um é chamado a concorrer aos diversos trabalhos e a suportar os diferentes gêneros de provas; é por isto que renascem alternativamente como ricos ou pobres, senhores ou servidores, operários do pensamento ou da matéria.

Assim se encontra fundado, sobre as próprias leis da Natureza, o princípio da igualdade, uma vez que o grande da véspera pode ser o pequeno do dia de amanhã, e reciprocamente. Deste princípio decorre o da fraternidade, uma vez que, nas relações sociais, reencontramos antigos conhecimentos, e que no infeliz que nos estende a mão pode se encontrar um parente ou um amigo.

É no mesmo objetivo que os Espíritos se encarnam nos diferentes sexos; tal que foi homem poderá renascer mulher, e tal que foi mulher poderá renascer homem, afim de cumprir os deveres de cada uma dessas posições, e delas suportar as provas.

A Natureza fez o sexo feminino mais frágil do que o outro, porque os deveres que lhe incumbem não exigem uma igual força muscular e seriam mesmo incompatíveis com a rudeza masculina. Nele a delicadeza das formas e a fineza das sensações são admiravelmente apropriadas aos cuidados da maternidade. Aos homens e às mulheres são, pois, dados deveres especiais, igualmente importantes na ordem das coisas; são dois elementos que se completam um pelo outro.

O Espírito encarnado sofrendo a influência do organismo, seu caráter se modifica segundo as circunstâncias e se dobra às necessidades e aos cuidados que lhe impõem esse mesmo organismo. Essa influência não se apaga imediatamente depois da destruição do envoltório material, do mesmo modo que não se perdem instantaneamente os gostos e os hábitos terrestres; depois, pode ocorrer que o Espírito percorra uma série de existências num mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, ele possa conservar, no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher do qual a marca permaneceu nele. Não é senão o que ocorre a um certo grau de adiantamento e de desmaterialização que a influência da matéria se apaga completamente, e com ela o caráter dos sexos. Aqueles que se apresentam a nós como homens ou como mulheres, é para lembrar a existência na qual nós os conhecemos.

Se essa influência repercute da vida corpórea à vida espiritual, ocorre o mesmo quando o Espírito passa da vida espiritual à vida corpórea. Numa nova encarnação, ele trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito; se for avançado, fará um homem avançado; se for atrasado, fará um homem atrasado. Mudando de sexo, poderá, pois, sob essa impressão e em sua nova encarnação, conservar os gostos, as tendências e o caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes que se notam no caráter de certos homens e de certas mulheres.

Não existe, pois, diferença entre o homem e a mulher senão no organismo material que se aniquila na morte do corpo; mas quanto ao Espírito, à alma, ao ser essencial, imperecível, ela não existe uma vez que não há duas espécies de alma; assim o quis Deus, em sua justiça, para todas as suas criaturas; dando a todas um mesmo princípio, fundou a verdadeira igualdade; a desigualdade não existe senão temporariamente no grau de adiantamento; mas todas têm o direito ao mesmo destino, ao qual cada um chega pelo seu trabalho, porque Deus nisso não favoreceu ninguém às expensas dos outros.

A doutrina materialista coloca a mulher numa inferioridade natural da qual ela não é erguida senão pela boa vontade do homem. Com efeito, segundo essa doutrina, a alma não existe, ou, se existe, ela se extingue com a vida ou se perde no todo universal, o que vem a ser o mesmo. Não resta, pois, à mulher senão sua fraqueza corpórea que a coloca sob a dependência do mais forte. A superioridade de algumas não é senão uma exceção, uma bizarrice da Natureza, um funcionamento dos órgãos, e não poderia fazer bem, a doutrina espiritualista vulgar reconhece muito a existência da alma individual e imortal, mas é impotente para provar que não existe uma diferença entre a do homem e a da mulher, e, portanto, uma superioridade natural de uma sobre a outra.

Com a Doutrina Espírita, a igualdade da mulher não é mais uma simples teoria especulativa; não é mais uma concessão da força à fraqueza, é um direito fundado sobre as próprias leis da Natureza. Fazendo reconhecer estas leis, o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, como abre a da igualdade e da fraternidade.

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

4 comentários em “Espiritismo e o Feminismo

  1. Mariana Responder

    Interessante que toda vez que vejo textos sobre as mulheres eles colocam a maternidade como o maior feito de uma mulher, se a mulher não é mãe então não está realizada, não está “cumprindo” a tarefa que lhe foi dada. Quando se fala de homens, muito raramente senão nunca é dito a palavra “paternidade”, portando eu vejo que o espiritismo é sim machista. 822 – a) De acordo com isso, para uma legislação ser perfeitamente justa deve consagrar a igualdade de direitos entre o homem e a mulher?
    — De direitos, sim; de funções, não.(…); que o homem se ocupe de fora e a mulher do LAR

    • Lulu Autor do postResponder

      Olá, Mariana!
      Sobre a questão da maternidade, sem entrar no mérito de se o ser gerado se transformará ou não em filho, o sexo feminino é único em sua capacidade geradora e essa é uma característica do feminino celebrada desde a antiguidade. Não sei quem são os “eles” a quem você se refere, mas em textos da codificação eu já li sim trechos celebrando a capacidade feminina geradora, mas nunca vi algo condenando alguma mulher que opte por não gerar filhos. Esse julgamento é social e os Espíritos ditos Superiores não entrariam nesse mérito. Mesmo porque, se considerarmos que a trajetória encantatória é traçada antes da encarnação, uma mulher que não previu filhos não engravidará. Aceitar isso depende de evolução social e o feminismo está fazendo o seu papel de questionador e motivador de mudanças.
      Eu fui buscar a questão 822 e a tradução que tenho aqui em mãos agora não cita a palavra LAR, mas sim INTERIOR: “Ocupe-se do exterior o homem e do interior a mulher”. Se você olhar a versão em francês, verá que ele também não usa a palavra lar (“que l’homme s’occupe du dehors et la femme du dedans”). Dizer que a mulher deve ficar no LAR foi uma interpretação de quem traduziu algumas versões d’O Livro dos Espíritos. Como não foi especificada qual a intenção do Espírito que ditou a resposta, podemos entender exterior e interior como sendo regiões espaciais de uma residência ou do próprio ser humano em si. Dentro de todo o contexto das questões 817 a 822, eu prefiro, pessoalmente, interpretar interior e exterior como sendo regiões do ser humano.
      Se você acredita que o Espiritismo é machista mesmo com diversas evidências de que tanto o codificador quanto os Espíritos insistiam na igualdade, ou melhor, na equidade entre homem e mulher em uma época em que ainda poquíssimas mulheres tinham o direito de frequentar uma Universidade, por exemplo, é direito seu. Eu consigo perceber uma visão bastante progressista ali. Agora, se as pessoas que seguem o Espiritismo continuam, hoje, dentro de Centros Espíritas insistindo em pontos de vista do século XIX, aí é problema delas e não do Espiritismo.

    • Lulu Autor do postResponder

      Olá!
      Não necessariamente. O Espiritismo, nas palavras do seu codificador, enxerga homens e mulheres com igualdade, da mesma forma que o feminismo. Isso não quer dizer que o Espiritismo seja feminista, uma vez que são correntes de pensamento distintas. Gosto de enxergar mais como uma coincidência de pensamentos entre as duas correntes. O Espiritismo divulga uma visão espiritual do tema, enquanto que o feminismo tem uma abordagem social. Nesse caso, omplementam-se, mas não é possível afirmar que uma corrente apoie a outra.

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