Hipnose e Espiritismo – O Muro

o muro

Ao estudar um pouco mais a fundo sobre mediunidade e também sobre hipnose é inevitável fazer um paralelo entre ambas atividades mentais. Tanto mediunidade quanto hipnose lidam com comunicação diretamente entre mentes, sendo, para isso, necessário transpor o fator crítico [1]. Uma analogia muito didática para a compreensão do fator crítico é imaginá-lo como um muro que delimita o conteúdo de nossa mente inconsciente. O objetivo da hipnose seria transpor esse muro.

Quem já teve interesse em estudar mais a fundo o Espiritismo e as referências utilizadas por Allan Kardec para organizar toda a informação que chegou até ele proveniente das diversas sessões mediúnicas em que participou ativamente como observador ou agente questionador, vai perceber que o Mesmerismo teve um papel fundamental na formulação da Doutrina Espírita. Termos como sonambulismo, magnetismo ou fluido universal têm sua origem na teoria do Magnetismo Animal popularizada pelo médico austríaco Franz Anton Mesmer (1734-1815). Ao adentrar no meio científico positivista, o Magnetismo Animal era frequentemente taxado de anticientífico, repleto de misticismo ou até mesmo de charlatanismo, uma vez que essa teoria consistia na “ideia de um fluido universalmente expandido que poderia ser transmitido de um indivíduo a outro e, portanto, ser utilizado para cura” [3], trazendo, desse modo, um conceito permeado pela imponderabilidade, sendo, portanto, imensurável pelo método científico. A hipótese de que um fluido de natureza desconhecida era transmitido de um indivíduo a outro e que esse fluido seria responsável pela cura de doenças foi testada através de experimentos que envolviam a transmissão desse fluido para objetos e estes eram, posteriormente, colocados em contato com pacientes doentes. Obviamente, os pacientes não foram curados pelo contato com os objetos “fluidificados”. Concluiu-se, a partir de então, que Dr. Mesmer era um charlatão, deixando-se de lado uma visão crítica sobre a hipótese testada e os métodos utilizados para tal experimentação e atribuindo os efeitos de cura e do transe sonambúlico à imaginação dos pacientes.

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O passe

Hoje, quem frequenta ou já teve a oportunidade de frequentar ao menos uma vez um Centro Espírita já se deparou com o “passe”, que carrega consigo o conceito de transmissão de fluidos físico-espirituais de um indivíduo a outro por imposição das mãos (sem aqui entrar no mérito, por hora, da natureza e origem desses “fluidos”).

Além da influência que o Mesmerismo teve sobre a Doutrina Espírita, a Hipnose também foi uma derivação dos conceitos trazidos à luz pelo Dr. Mesmer e foi estudada e conhecida pela russa Helena Blavatsky. A Hipnose que, apesar de ser uma palavra com uma raiz grega proveniente da palavra hypnos ou sono, não significa dormir, mas sim representa um estado de concentração intensa ou transe hipnótico. Durante o sono, o estado de concentração, fundamental para a hipnose, é perdido, enquanto que durante o transe hipnótico, esse estado de concentração é intensificado [4]. Entretanto, ao contrário do que acreditava Dr. Mesmer, sabe-se hoje que o transe hipnótico não é induzido pela transmissão de um fluido magnético, mas sim que o “magnetizador” –  como denominava o Mesmerismo – ou Hipnotista apenas conduz o sujeito ao estado de concentração profunda ou transe hipnótico, que é uma capacidade inerente à mente humana. E essa condução ao estado de concentração só é atingida com a permissão do sujeito, sendo, portanto, a autoconfiança do hipnotista e a anuência do sujeito duas condições fundamentais para que seja atingido com sucesso o transe hipnótico. Quem já assistiu aquelas demonstrações de hipnose na TV ou na rua deve ter percebido que o hipnotista sempre pergunta (ou pelo menos deveria) se o sujeito deseja ser hipnotizado

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O relógio é apenas uma distração para a sua mente consciente

e faz também uma seleção prévia utilizado algumas técnicas progressivas para selecionar aqueles sujeitos mais suscetíveis às sugestões hipnóticas. Tudo isso está ligado à susceptibilidade da mente do sujeito em receber sugestões. Dessa maneira, sob um ponto de vista espiritualista (afinal, este é um blog sobre mediunidade), a hipnose seria a capacidade de um ser encarnado de sugestionar outro ser encarnado.

Vamos imaginar que em volta de nossa mente tem um muro, que representa o fator crítico, ou seja, uma proteção contra estímulos mentais externos, preservando o conteúdo proveniente da nossa própria mente. Qualquer sugestão feita por outra mente, para que atinja a nossa, deve ultrapassar o muro. Algumas pessoas apresentam um muro naturalmente mais alto, enquanto que em outras o muro é mais baixo. Durante o processo de hipnose, o hipnotista tem o objetivo de ultrapassar o muro (ou fator crítico) entre as mentes consciente e inconsciente do sujeito. Para isso, ele pode pular o muro ou diminuí-lo. Pular o muro demandaria ao hipnotista energia e força para escalar a parede, pular do outro lado e ainda torcer para que as defesas não o joguem de volta para fora. Muito menos trabalhoso seria diminuir a altura do muro. E é nisso que consistem as técnicas de conversa prévia, pedido de autorização e orientação verbal para a entrada no estado de transe hipnótico. Percebam que as técnicas para diminuição do muro agem diretamente em mecanismos compreensíveis pela nossa mente inconsciente, ou seja, aquela responsável pelos seus sentimentos. Elas consistem em enviar recados indiretos que tornem os sujeitos confiantes no hipnotista e abertos às sugestões, mesmo que não tenham consciência direta disso. Uma vez eliminada ou diminuídas as defesas da mente contra as sugestões do hipnotista, este consegue sugestionar com maior facilidade desde informações simples como dizer que as mãos do sujeito estão grudadas, até sugerir efeitos de amnésia, anestesia ou até mesmo a cura de alguma doença. Essa relação entre indivíduo sugestionante e sugestionado é totalmente mental e ocorre em um nível

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Hadrian’s Wall. Muro construído pelo imperador Adriano no séc II na Grã-Bretanha. O objetivo era proteger o Império Romano das tribos que habitavam a Escócia.

inconsciente, ou seja, trabalha diretamente os sentimentos. E é provável que seja esse o motivo pelo qual os pesquisadores contemporâneos a Dr. Mesmer não conseguiram detectar o fluido universal. A atribuição dos resultados de cura e do transe à imaginação dos pacientes ficaria muito interessante ao analisar a analogia do muro, já que imaginação nada mais é do que uma capacidade mental. Alguém se lembrou do efeito placebo?

fator criticoPerceberam que eu (assim como os especialistas em Hipnose) sempre uso o termo sugestão e nunca indução? É porque, apesar da diminuição do muro facilitar a incorporação da ideia vinda da mente heteróloga, o sujeito sempre tem a escolha em aceitá-la ou não. E essa condição é muito bem compreendida quando invocamos a famosa Lei do livre-arbítrio, uma vez que a moralidade, ética e valores pessoais permanecem ativos durante a hipnose. Percebam que, para nós que aceitamos a existência de um plano espiritual, a Hipnose pode ser facilmente ampliada para a sugestão de indivíduos desencarnados para com indivíduos encarnados. Essa interação entre desencarnados e encarnados não lembraria algum conceito-chave bastante conhecido dentro dos estudos e práticas espiritualistas, a mediunidade?  Não seria a mediunidade a sugestão de mentes de indivíduos desencarnados em direção à mente de indivíduos encarnados? Reflitamos…

Sabemos, ao consultar a extensa literatura espiritualista/Espírita – e com a prática – que a mediunidade é puramente mental [4], ou seja, que a comunicação entre encarnados e desencarnados acontece através do contato entre as mentes de ambos, quando a mente externa se utiliza do cérebro de carne do encarnado para realizar sua comunicação. Independentemente se esse contato foi obtido deliberadamente pelo médium através da frequência em uma casa que realiza atividades espiritualistas ou no dia a dia do indivíduo encarnado, quando, sem ter consciência, os habitantes do plano espiritual entram em contato com ele. Como eu já disse antes, a mediunidade é uma habilidade inerente ao ser humano e o plano espiritual existe de maneira independente à nossa percepção dele. Quanto menos consciência temos da existência dos espíritos e das possibilidades de interação com eles, mais suscetíveis nos tornamos em aceitar as sugestões mentais vindas dos desencarnados. Se não tomamos consciência da possibilidade de sermos sugestionados por indivíduos que habitam o plano espiritual, não criamos muros de proteção e as sugestões chegariam facilmente à nossa mente como ideias sem que sequer saibamos que não são nossas. De maneira oposta, quando nos tornamos conscientes sobre o plano espiritual e sabemos que, assim como não devemos confiar em qualquer pessoa que se aproxima de nós, não deveríamos confiar em quaisquer sugestões

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David Bowie e Tilda Swinton no vídeo “The stars (are out tonight)”, do Bowie.

vindas de Espíritos, criamos um muro mental de proteção. Desse modo, quando nos protegemos, os Espíritos mal-intencionados precisariam fazer uso de artimanhas para que suas sugestões ultrapassem o nosso muro, lançando mão de estratégias para que o muro abaixe. Uma dessas estratégias é a manipulação emocional.

Para tornar esse exemplo de sugestões de mentes que não estão encarnadas sobre mentes encarnadas menos fantástica, podemos expandir a imagem do muro para todos os aspectos que envolvem interações entre mentes – afinal, a diferença entre a mente desencarnada e a encarnada é que esta última está permanentemente manifestada aqui neste plano através de um cérebro de carne. A área de vendas pode ser um exemplo prático fácil de compreender. Quando um vendedor está oferecendo um produto a um cliente, ele faz uso de estratégias que visam abaixar o muro desse cliente e lançar uma sugestão – a compra do produto – na mente deste. Não sou especialista em vendas, portanto tenho uma visão muito mais de cliente do que de vendedora e observo que essas estratégias do vendedor podem variar desde a escolha de um ambiente agradável para a conversa e o oferecimento de amostras grátis do produto, até uma insistência constante a cansativa para que o cliente aceite comprar o produto. A resposta do cliente nesse momento vai depender muito mais de seu estado emocional no momento da venda do que simplesmente da vontade de adquirir o produto (quem nunca deixou de comprar um produto que precisava porque o vendedor era um chato?). Conhecendo muito bem como funcionam esses mecanismos psicológicos, os profissionais do marketing tentam o tempo todo fazer com que o público-alvo do produto a ser vendido se envolva muito mais com os valores (morais) que o produto transmite do que com a necessidade propriamente dita de possuí-lo. E isso é feito envolvendo emocionalmente o público com o produto. Quando

o comercial de uma famosa marca de refrigerantes mostra uma família composta por pessoas consideradas bonitas, saudáveis e felizes, enquanto que a mãe da família oferece – com sorriso no rosto – o refrigerante à família, ele busca uma identificação das mães por

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O marketing abaixando nosso muro.

aquela situação. As mães que estão assistindo com certeza desejam uma família como aquela mostrada no comercial e associam aquela imagem de família feliz ao produto; portanto, inconscientemente, quando a mãe compra aquele refrigerante ela não está comprando, necessariamente, uma água gaseificada cheia de açúcar e outros compostos, ela está comprando a felicidade da família! E esse exemplo pode ser estendido para boa parte das peças publicitárias.

Vejam como a comunicação através de modulação emocional do interlocutor torna-se muito mais eficiente, uma vez que a mensagem transmitida através de emoção não é detectada, necessariamente, pela mente consciente, ou seja, aquela que é capaz de receber, comparar, analisar e avaliar as informações recebidas. Passar uma informação à mente consciente, através de símbolos diretos compreensíveis ao interlocutor como escrita e fala, associada a um contexto que forme emoções favoráveis à mensagem que está sendo transmitida, torna a informação potencialmente mais compreensível pelo interlocutor.  Quem teve a oportunidade de presenciar uma aula de cursinho pré-vestibularcom aqueles típicos professores extrovertidos, que inventam músicas e contam piadas o durante a aula, provavelmente percebeu que o aprendizado fica muito mais fácil. Isso acontece porque ao contar uma piada ou cantar uma música, o professor tornaria aquele ambiente emocionalmente mais agradável para os alunos; estes, por sua vez, tornam-se motivados a aprender. O conteúdo da aula (através de palestra, leitura

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Professor de cursinho abaixando o muro da turma.

ou método escolhido pelo educador), que faz aqui o papel da sugestão, é transmitida à mente consciente que interpreta e analisa as informações, enquanto que as emoções dos alunos tornaram a mente favorável a receber todo aquele conteúdo de informações transmitido. A estratégia do divertimento durante a aula nada mais seria do que o muro dos alunos sendo abaixados.

Quem nunca recebeu algum texto via Facebook – ou naqueles Power Points enviados pela mãe – contando uma história triste e de superação, acompanhado de fotos sensíveis e sempre com uma moral no final? Será que se enviassem apenas a moral da história, sem toda aquela narração, a mensagem teria o mesmo impacto? Eu chutaria uma resposta negativa. A narração da história é construída para emocionar e gerar empatia no interlocutor. Quando o interlocutor se coloca no lugar da personagem da história, a compreensão da moral fica facilitada. Ocorre, nesse exemplo, outra vez, o preparo emocional acompanhado da informação objetiva. Ou, em outras palavras, o abaixamento do muro seguido de inserção da sugestão.

Seria possível enumerar vários exemplos passíveis de análise dessa relação entre mensagem transmitida através de estímulos emocionais associada a informação direta e consciente. Quando ampliamos essa análise para a interação da nossa mente, que se manifesta através de um cérebro de carne, com uma mente desencarnada, chegamos, como já dito, a conceitos como o da mediunidade, podendo ampliar para questões mais específicas como a obsessão. Além disso, essa relação de mensagem transmitida/enviada concomitantemente por vias emocionais (inconsciente) e racionais (consciente) são as bases das transmissões de conhecimento através de mitologias, rituais – religiosos ou não – e também a base mental para a materialização de ideias; e nada mais é do que um “casamento” de duas vias de estímulos mentais que geram um “filho” (resultado) aqui no plano material. Vou finalizar este texto aqui, mas o conceito será ampliado futuramente, já que esta seria a chave de interação da nossa mente com a matéria na qual estamos encarnados.

[1] Fator crítico é uma barreira que impede que sugestões externas cheguem à mente inconsciente.

[2] Neubern, Maurício da Silva. Sobre a condenação do magnetismo animal: revisitando a história da psicologia. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 23, n. 3, p. 347-356. 2007.

[3] Spiegel, Herbert; Spiegel, David. Trance and treatment: uses of hypnosis. Ed. American Psychiatric Publishing, Arlington/VA, 2nd ed.; p.8-9, 2004.

[4] No livro “Nos Domínios da Mediunidade”, escrito pelo Espírito André Luiz e psicografado por Chico Xavier, a explicação sobre o caráter mental dos mecanismos da mediunidade é bem explorada.

 

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

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