Intolerância em germinação: do medo à intolerância

GerminacaoO último fim de semana foi marcado pela intolerância, representada por manifestações de cunho nazista e supremacista branco na cidade de Charlottesville, Virginia, EUA. No Brasil, alguns dias antes, Mohamed Ali, um refugiado sírio-egípcio que trabalha como ambulante em Copacabana (Rio de Janeiro), sofreu agressões xenofóbicas de outro ambulante enquanto trabalhava. O vídeo foi postado nas redes sociais e causou uma mobilização pelo país. Inúmeros outros exemplos poderiam ser dados para mostrar como a intolerância ao diferente está cada vez mais exposta e disseminada.

intolerancia
Intolerância

Exemplos como esse dois, que aconteceram somente no início do mês de agosto, tornaram-se constantes ao redor do mundo. É como se a intolerância, o medo, a ignorância e a violência, tivessem se espalhado e tomado conta de uma parcela considerável da população mundial. Porém, essas características não são como vírus que infectam organismos suscetíveis, ele é sim como semente que estava hibernando no solo ressecado do deserto e que, ao menor sinal de chuva, brota.

A sabedoria

No planeta Terra encarnam espíritos de variados graus de sabedoria, ou seja, mais ou menos dotados de habilidade de usar os conhecimentos que possui para tomada decisão na direção do curso proposto pela própria criação. Essa sabedoria, conquistada às custas de trabalho duro permeado por erros e acertos, guia o senso de bem-estar social de cada um dos Espíritos encarnados ou não neste planeta.

A Terra é ainda a escola que constrói os nossos valores como seres sociais. Ela promove o nosso despertar enquanto indivíduos conscientes de nós mesmos, recém experimentados na coletividade baseada exclusivamente no instinto. A grande prova aqui neste planeta é olhar para si mesmo como um indivíduo dotado de características particulares resultantes de experiências próprias, inserido em uma sociedade que sobrevive de cooperação das mais distintas capacidades e habilidades. Juntas, as particularidades, que individualmente parecem tão destoantes, coordenam-se e constroem um organismo social completo e funcional.

formigas cooperando
Cooperação das formigas. Cada uma é individualmente imprescincível para o trabalho.

Para que atinjamos esse nível de cooperação onde todos são individualmente imprescindíveis, precisamos construir o nosso caráter individual. Não é lógico esperar uma sociedade plenamente funcional formada por indivíduos ainda não totalmente conscientes da importância de sua contribuição no contexto social. Porém, antes ainda de formar a consciência da contribuição como cidadão, o indivíduo precisa construir o próprio caráter como ser consciente de si próprio.

Ao nos submetermos às sucessivas experiências encarnatórias nas condições presentes no planeta Terra, estamos buscando desenvolver esse aprendizado essencial que forma quem somos. Os modelos e as teorias sociais e econômicas que nos dividem, de Karl Marx a Ludwig von Mises, visam, cada um à sua maneira, a organização e o bom funcionamento da sociedade. Entretanto, baseiam-se em atores sociais conscientes do próprio papel. A mais perfeita formatação política, econômica e social será consequência do desenvolvimento da sabedoria individual construída com base no autoconhecimento.

O instinto

A falta de autoconhecimento dá aos seres já dotados de sensação de individualidade a ideia de homogeneidade. Ainda somos bastante guiados por comportamentos instintivos, caracterizados por aquilo que nos une como espécie, mas que são inconscientemente determinados. São como impulsos que guiam nossos comportamentos, muitas vezes de maneira incontrolável, sem que tenhamos consciência da decisão  sobre sua existência ou não.

anatomia
O instinto é resultado da consequência comportamental automática gerada por macanismos biológicas e bioquímicos do corpo.

O instinto é uma característica biológica e o corpo físico, como máquina orgânica, é constituído por mecanismos de funcionamento. As ciências biológicas e médicas evoluíram imensamente na compreensão do funcionamento desse nosso veículo corpóreo. Com o avanço da ciência, já podemos prever e intervir em incontáveis reações bioquímicas e interações biomoleculares, motivados pelo conhecimento cada vez maior da previsibilidade dos mecanismos. As abordagens terapêuticas, medicamentosas ou cirúrgicas para o tratamento de doenças que acometem o nosso físico só são possíveis, pois estamos compreendendo as regras que organizam o nosso corpo. São essas regras de estruturação de organelas, células, tecidos e órgãos, organizados com base em reações bioquímicas funcionando em perfeita sintonia comandadas por uma central genética, que nos une como mesma espécie.

Esse padrão biológico mais ou menos idêntico entre os seres que compartilham a mesma espécie produz expressões mais ou menos idênticas de características externas, sejam elas orgânicas, físicas ou comportamentais. Salvo quando há alguma condição adversa, a previsibilidade é uma característica do nosso corpo. Quando esses mecanismos de funcionamento automáticos resultam em comportamento, eis o instinto.

dirindo veiculo
Quase como o Espírito dirigindo o veículo corpóreo.

O instinto é o nosso corpo funcionando sem que tomemos consciência de como dirigi-lo. Se entendermos o corpo como um veículo pilotado pelo Espírito, o instinto poderia ser entendido como o piloto automático. Para que saibamos como pilotar devidamente um veículo, primeiramente, precisamos conhecer seu funcionamento. Para pilotar com maestria, é necessário treinamento. Para isso, existem cursos preparatórios de autoescolas e um número mínimo de aulas que devemos frequentar para adquirir habilidades mínimas de condução de automóveis, por exemplo.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao Espírito pilotando o corpo físico. É preciso conhecer o funcionamento do corpo para saber como conduzi-lo. Podemos entender a experiência encarnatória como uma grande autoescola que nos dá possibilidades infinitas de treinamento, nas mais diversas condições possíveis, para a condução da nossa máquina corpórea. Aqui, aprendemos com tentativa e erro as minúcias do trabalho mental necessário para que o Espírito conduza de maneira consciente esse veículo de carne, sobrepondo a razão aos instintos. Como expectativa desse aprendizado, passamos a entender as nossas habilidades e os nossos limites como Espírito consciente.

individualidade
Individualidade. Cada um no seu cada qual.

Com o desenvolver das nossas habilidades na condução do corpo físico, ou autodomínio, o instinto tende a dar lugar a uma expressão individualizada, pois aqueles que dominam os próprios impulsos inconscientes abrem espaço para preencherem-se a si mesmos com uma expressão compatível com suas próprias verdades. Todo esse processo acontece obedecendo as regras de funcionamento do corpo biológico. Ou seja, aprendemos a pilotar o nosso corpo utilizando as condições orgânicas já estabelecidas. Quando isso acontece, a experimentação dá, então, lugar à ação. E é a ação que vai caracterizar a verdadeira expressão daquele Espírito forjado em si mesmo no calor das encarnações.

Portanto, se você justifica as próprias atitudes com argumentações embasadas em dogmas religiosos como “Deus nos fez assim” ou em dogmas científicos como “evoluímos assim como espécie”, você até tem uma parcela de razão. Todavia, se esquece que não somos somente corpo e que o domínio sobre esses impulsos estritamente biológicos não só é possível, como é meta de cada um dos Espíritos-aprendizes matriculados na escola Terra.

O medo

Movimentos que pregam a intolerância e que são baseados no ódio ao diferente podem ser caracterizados pelo quase completo domínio do instinto sobre seus adeptos. Esse ódio que sentem e compartilham pelos indivíduos que apresentam alguma característica diferente daquilo que consideram padrão é somente uma expressão instintiva do medo. Não nos esqueçamos que saber conduzir o veículo físico inclui, em igual proporção, o domínio sobre suas próprias expressões emocionais, assim como sobre as expressões racionais.

fear is a liar
O medo é um mentiroso.

O medo nada mais é do que o temor que sentimos frente ao desconhecido e, nesse caso, é consequência da ignorância sobre a nossa realidade imediata. Não ter conhecimento sobre a condição do outro que, para o intolerante, se coloca em posição diametralmente oposta, gera um espaço para inferências nem sempre baseadas em fatos. Essas inferências, como instinto de autoproteção frente ao desconhecido, tendem a afastar o indivíduo daquilo que tem potencial para ferir. É desse mecanismo que, nesse caso, surge o ódio e deste, a intolerância.

Se ao identificarmos o sentimento de medo tivéssemos a atitude de conhecer os fatos sobre a condição que caracteriza o indivíduo diferente, teríamos a chance de anular o medo e evitar o ódio. Entretanto, identificar o medo antes que se torne ódio exige um pré-requisito importante: o autoconhecimento. É preciso treino e habilidade, ou sabedoria, para olhar para si mesmo em situações em que o corpo tende automaticamente a fugir do perigo e reconhecer o fator desencadeador de sentimentos que são contrários ao bem-estar próprio e social.

A semente

medoAlguns medos desenvolvidos ao longo da nossa encarnação ficam latentes. Às vezes, há um rápido contato com alguma situação que gera estranhamento, mas, por falta de outros contatos com essa mesma situação, a sensação é guardada e o medo, não expresso. Outra situação possível, é a expressão íntima do medo e o desenvolvimento de um ódio que é mantido com discrição por desconhecimento ou – de novo – medo das opiniões de pessoas próximas.

Algumas condições específicas permitem que esse medo incubado seja germinado. Hoje, a internet e as redes sociais conectam pessoas que, em outras épocas, nunca teriam a oportunidade de interagirem. Essa aproximação torna possível o compartilhamento de pensamentos diversos sobre os mais variados assuntos, assim como possibilita a exposição a indivíduos e situações distintas daquelas que elegemos como padrão para a nossa existência, incubando e germinando cada vez mais medos.

A germinação

Sendo usufruída individualmente por nós – seres em treinamento que ainda não dominam completamente seus instintos – a rede mundial de computadores tornou-se um oceano instintivo de reações emocionais sem controle, o que possibilita um ambiente propício para a germinação daquele medo incubado. O instinto, permanecendo entre o medo e o ódio, encontra seus pares na rede formada pela internet.

dr evilOutro fator de germinação é o surgimento de lideranças que utilizam os medos identificados nas pessoas para benefício próprio. Essa lideranças identificam os medos incubados e regam as sementes, tranformando-os em ódio e intolerância. Expõem as pessoas aos seus temores, criam inferências mentirosas sobre a condição que projeta o medo e reúnem multidões de indivíduos que compartilham os mesmos medos, criando o ambiente propício para que o ódio possa ser exposto e justificado. Alguns desses líderes fazem um trabalho tão completo que suas ideias permanecem disseminadas por muito tempo. Esse fator pode ser exponencialmente exaltado com a internet.

Para que prospere, a ódio resultante do medo precisa ser constantemente alimentado com a ideia de que o fator que origina esse medo é um inimigo a ser combatido. A intolerância não passa, portanto, de mecanismo utilizado para a manutenção do ódio, e, por consequência da sensação de medo necessária para manter o indivíduo preso ao instinto e distraído do seu aprendizado sobre si próprio.

Cortando a intolerância pela raiz

A solução para o combate ao medo e, em útima instância, à intolerância já foi apontada alguns parágrafos acima. Autoconhecimento, educação, incentivo do raciocínio e criação de ambientes seguros para que pessoas possam experimentar sua individualidade até que encontre sua própria expressão. Tudo isso embasado em forte incentivo à ética e à tolerância.


Gostou do texto? Compartilhe nas suas redes sociais.

 

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *