Livre-arbítrio – Quando o conhecimento liberta

livre-arbitrio

Vou iniciar este texto situando o tema a partir de uma questão d’O Livro dos Espíritos: “O homem tem livre-arbítrio de seus atos? R. Visto que ele tem a liberdade de pensar, tem de agir. Sem livre-arbítrio o homem seria uma máquina ” [1].

A própria resposta à pergunta já define livre-arbítrio, que, segundo o minidicionário Aurélio significa “a capacidade individual de autodeterminação”. Ou seja, temos a liberdade de pensar e de auto determinarmo-nos, direcionando as nossas ações de acordo com nossa vontade.

Mas antes de entrar no tema em si, precisamos, antes, situarmo-nos no Todo. Precisamos compreender o nosso papel na existência para, aí sim, entendermos como e para que tomamos decisões.

Não é novidade que o Papo de Médium é um blog que aborda temas espiritualistas. Iremos, portanto, abordar o assunto livre-arbítrio do ponto de vista do Espírito e das vivências além deste plano material onde nos encontramos e interagimos neste exato momento.

planeta-terra
Em nosso atual estágio de desenvolvimento, é aqui que encarnamos.

Sabemos que o Espírito é imaterial e imponderável, tendo a inteligência como atributo [2]. Inteligência essa construída através do acúmulo de experiências vivenciadas pelo Espírito. Em nosso atual estágio de desenvolvimento espiritual ainda precisamos da matéria mais densa para vivenciarmos experiências compreensíveis ao nosso atual grau de inteligência. O Espírito em si apresenta um potencial de ação imenso, tendo um potencial criador inimaginável no estágio em que nos encontramos. Porém, esse potencial que carregamos em nosso Espírito deve ser descoberto e aprendido com o passar das vivências e experiências adquiridas com as encarnações.

caverna platao
Se para sombras olhamos, sombras veremos.

A matéria nos provê as amarras que nós mesmos nos impomos, determinadas pela fase de ignorância em que nos encontramos. Ou seja, a partir do conhecimento que acumulamos a respeito de nós mesmos, a limitação da matéria garante o material bruto com o qual nossa sabedoria consegue trabalhar. Por isso a necessidade do nascimento e renascimento na densidade em que estamos.  Aqui, aprendemos a trabalhar com as ferramentas que dispomos, até que um dia o nosso pensamento esteja equilibrado e nossa Vontade seja capaz de criar sem a necessidade limitante do plano material. O plano espiritual, de matéria mais sutil, ainda está muito além da nossa capacidade criadora (quantos não são aqueles Espíritos que desencarnam e continuam presos às necessidades materiais de alimentação e vícios somente saciados pelo corpo material). O plano mental, tão imaterial quanto o Espírito, é ainda mais incompreensível. Desse modo, a matéria se adequa às limitações de nossa falta de conhecimento sobre nós mesmos.

Na Terra, ainda há Espíritos com variados graus de sabedoria, buscando diferentes tipos de experiência para desenvolverem o seu potencial. Muitos de nós ainda estamos presos à necessidade de experimentações para resgate de ações que desequilibraram a balança do desenvolvimento espiritual. Outros poucos já equilibraram suas balanças e estão imersos em experiências que já permitem um autoconhecimento mais aprofundado e a plena realização de um planejamento encarnatório que delineie um salto de desenvolvimento espiritual mais acentuado.

Para compreendermos os mecanismos do livre-arbítrio, precisamos levar em consideração a vasta gama de níveis de sabedoria inerentes a nós Espíritos que habitamos a Terra hoje. A liberdade de ação, para os diversos níveis de sabedoria, inicia-se no planejamento encarnatório, quando temos a chance de, antes de encarnar, analisar quem somos, o que sabemos e quais experiências precisamos vivenciar para acumular o conhecimento necessário para atingirmos nosso objetivo maior. Mas o delineamento e execução desse planejamento depende de um certo nível de conhecimento que permita ao Espírito compreender os mecanismos que regem a encarnação. Por esse motivo que ouvimos falar em Espíritos que atuam auxiliando ou realizando o planejamento encarnatório de outros (ou até mesmo em “encarnação compulsória”). André Luiz chamou esses Espíritos de construtores [3].

reencarnação
Nascemos, morremos, nascemos de novo e morremos outra vez. Nossas experiências determinarão a sabedoria que carregamos em Espírito.

O planejamento das atividades a serem desenvolvidas durante a encarnação depende da bagagem de conhecimento, débitos a serem reparados ou necessidade de potencialidades a serem afloradas no Espírito durante as experiências vivenciadas na matéria. Nós só carregamos os fardos que aguentamos carregar. E o peso do fardo está diretamente ligado ao conhecimento que o Espírito já adquiriu até então. A liberdade de planejar a encarnação está diretamente ligada ao quanto o Espírito conhece sobre os mecanismos envolvidos no processo e também ao quanto conhece sobre si mesmo. E cada caso é um caso. É possível encontrar Espíritos que estão no início do processo de autodescoberta e em transição para uma etapa de percepção de si mesmos como individualidades, até Espíritos que já dominam perfeitamente as lições de domínio de si mesmos, da matéria e da própria mente, passando por todas as possibilidades intermediárias. Essa miríade de possibilidades é que vai determinar a necessidade de auxílio de outros Espíritos durante o planejamento da encarnação e da execução dos processos imediatos à ligação do Espírito à matéria.

magali melancia
A Magali não teria a melancia como sua fruta predileta se ela não conhecesse a existência dessa fruta.

É interessante considerar a fundamental importância da bagagem de sabedoria individual no processo. Para o Espírito, saber colocar em prática o conhecimento que possui, é determinante para as escolhas. Nós só conseguimos fazer escolhas se conhecemos as variáveis envolvidas. Por exemplo, uma criança muito pequena não é habilitada para decidir sobre sua própria alimentação pelo simples motivo de que não desenvolveu ainda as habilidades cognitivas e o conhecimento necessário sobre alimentos para tomar as melhores decisões de sobrevivência para si. Do mesmo modo, alguns Espíritos ainda não possuem as habilidades emocionais e o conhecimento necessário para realizarem por si próprios o planejamento de uma encarnação.

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Ator interpretando Hamlet, de Shakespeare.

Após a fase de preparo pré-encarnatório, vem a encarnação propriamente dita. É nessa etapa que nos encontramos agora. Nesse momento, podemos fazer um paralelo com uma peça de teatro: nossos corpos físicos são personagens e nossos Espíritos são atores interpretando uma peça escrita previamente. Aqueles que conseguem seguir o roteiro da peça completam um ciclo e adquirem a experiência necessária para seguir adiante, interpretando, em seguida, peças de maior dificuldade. Mas aqueles que, por algum motivo, não seguem o roteiro e interpretam somente de improviso, sem nenhuma relação com a sinopse original, confundem a plateia e, inevitavelmente, precisam estudar melhor o roteiro e voltar a interpretá-lo novamente em outra oportunidade.

Em outras palavras, uma vez encarnado, o Espírito expressa as potencialidades escolhidas previamente (dentro daquelas que o Espírito já adquiriu em experiências anteriores) e submete-se a condições planejadas. Durante a experiência na matéria, o encarnado tem a liberdade de empregar as potencialidades expressas da maneira que desejar. Lembrando que essas potencialidades foram planejadas como ferramentas para que o encarnado vivencie as experiências e colha delas as lições necessárias para acumular a sabedoria no Espírito ou reparar desequilíbrios anteriores. Uma vez na matéria, o encarnado tem a liberdade de escolher como essas potencialidades serão utilizadas, podendo ser utilizadas como o planejado ou não. Elas podem ser utilizadas para somar ou para subtrair. Podem ser utilizadas para passar pelas provações de modo construtivo ou destrutivo. É aí que entra o livre-arbítrio do Espírito encarnado.

Quanto mais conhecimento o encarnado tem sobre si mesmo e sobre a realidade à sua volta, mais possibilidades de escolha ele tem. Assim como acontece durante o planejamento encarnatório, o conhecimento que o encarnado possui e expressa também influencia no seu poder de decisão. Se o indivíduo encarnado tem pouco acesso a informação e tem pouco conhecimento sobre o mundo a sua volta e sobre as questões que envolvem sua existência, pouco poder de decisão ele terá. Nesse estado, ele estará vulnerável ao poder de decisão de quem tem acesso a mais conhecimento que ele. E como estamos encarnados em um planeta onde os indivíduos ainda estão em processo de aprendizado sobre as leis morais que regem uma convivência pacífica e construtiva, quanto mais conhecimento um indivíduo tem, mais poder sobre os outros ele pode exercer. E o poder nada mais é do que o controle sobre outras pessoas e sobre suas atitudes.

espelho
Desde a antiguidade o termo “conhece a ti mesmo” é utilizado – seja como inscrição em Delfos ou pelos ensinamentos de Sócrates/Platão -, mas até hoje insistimos em não prestar atenção em nós mesmos, limitando o nosso livre-arbítrio.

Percebem a relação estrita entre livre-arbítrio e conhecimento? Conhecer a nós mesmos (para que viemos, quais características trazemos, quais nossos pontos fortes e fracos, quais nossas vantagens e limitações) e o mundo a nossa volta nos traz liberdade de escolha. E essas escolhas que fazemos vão desde o planejamento da nossa encarnação (quando estamos desencarnados), passando por grandes escolhas que influenciarão diretamente nossa vida, até pequenas escolhas do dia-a-dia. Quando não temos acesso ao conhecimento necessário para decidir qual caminho percorrer, alguém o fará por nós: sejam os Espíritos construtores, ao planejarem como nos expressaremos aqui ou políticos, que decidem sobre assuntos cotidianos que não temos interesse em conhecer, mas que, no final, vão afetar nossa vida de maneira direta. Além disso, a falta de conhecimento sobre nós mesmos e nossa relação com o mundo espiritual nos torna presas fáceis para espíritos conhecedores, porém não muito bem-intencionados, que se aproveitam da nossa ignorância para tomarem decisões por nós e direcionarem nossas escolhas.

A ignorância sobre o mundo espiritual também nos limita após o desencarne, uma vez que sem o corpo nossas únicas amarras são colocadas por nossa própria mente – tornando o mundo espiritual muito mais plástico e imediatamente moldável pela Vontade -, e quanto mais ignorante somos, menos possibilidades temos. Se sequer conhecermos a possibilidade de continuidade da vida após a morte, a chance de compreensão do desencarne pode ficar prejudicada e a possibilidade de tomar decisões fica limitada à pouca quantidade de informação sobre o processo. Quando conhecemos a possibilidade da vida após a vida, a liberdade de decidir o que fazer quando nos vemos sem o corpo físico é bem maior. Como poderíamos tomar qualquer decisão sobre o que fazer nessa nova condição se sequer a compreendemos devidamente?

Quando o livre-arbítrio é analisado sob a ótica de sua direta associação ao conhecimento, fica muito mais fácil compreender a relação entre conhecimento e liberdade. Sem conhecimento, o livre-arbítrio – ou falta dele – é apenas mais uma ferramenta de controle, já que, para quem detém o poder, criar a ilusão de que as pessoas têm liberdade, gera controle sobre elas e, por consequência, sobre suas decisões.

Aqui na Terra, conhecimento é ferramenta de evolução e sua omissão gera controle. Mas quando eu cito conhecimento não estou querendo dizer aquele conhecimento que é empurrado goela abaixo na escola com único objetivo de gerar mão-de-obra qualificada; ou simplesmente um conhecimento técnico em alguma disciplina. Este também é importante para o desenvolvimento de nossa liberdade dentro da sociedade em que nos encontramos. Entretanto, o conhecimento ao qual me refiro aqui é mais amplo. Envolve, para citar mais uma vez, conhecer a nós mesmos e o mundo onde estamos inseridos. Envolve saber o que estamos fazendo aqui e para onde vamos. Envolve viver com independência que nos dê liberdade para acertar e errar sem sermos influenciados por amarras dogmáticas e, como consequência, atingir a sabedoria por nós mesmos. Envolve galgarmos a possibilidade de atingirmos um estado mental tão equilibrado que nos permita tomar as decisões com o Espírito e não somente com o cérebro físico.  Quando chegarmos nessa etapa, onde cada um é responsável por si mesmo, conhecendo as reais motivações de estar submetendo-se a uma experiência de encarnação e motivado a realizar tudo aquilo a que se propôs antes do encarne, um equilíbrio político, social e psicológico será inevitável. E esse equilíbrio externo será nada mais do que o reflexo de um equilíbrio interno coletivo, refletido no meio à volta de cada uma das pessoas.


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[1] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, questão 843.

[2] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos, questões 23 e 24.

[3] Chico Xavier (psicografado pelo Espírito André Luiz). Os Missionários da Luz. Capítulo 13.

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

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