O Abismo

A abismo é um assunto abordado em textos Espíritas como a referência espacial/mental a um local onde os Espíritos menos afortunados e que, por algum motivo, não compreenderam o propósito de sua existência, encontram-se. Mas não é esse, diretamente, o abismo que será aqui abordado, apesar do paralelo poder ser traçado. O abismo a ser discutido aqui é uma metáfora para a ignorância.

Imagine-se caminhando em uma estrada; na estrada que representa as diretivas de sua vida. A estrada e toda a paisagem a sua volta é composta pela realidade palpável aos seus sentidos. Todos os sabores, texturas, sons, aromas e cores ali presentes são percebidos pelos seus cinco sentidos. Na paisagem que envolve essa estrada, tudo o que estimula um dos sentidos pode ser percebido, observado e testado. Ter a oportunidade de caminhar por essa estrada é ganhar a chance de usar os sentidos para aprendizado e crescimento, uma vez que você tem a oportunidade de exercitá-los para aprender a usar as sensações que percebe de forma a contribuir para a caminhada adiante e para a melhor compreensão do mundo a sua volta. Conforme você caminha e percebe, você tende a formar padrões de pensamento sobre a maneira como esse mundo perceptível a sua volta funciona. Com o tempo, já tendo observado e testado o bastante, você começa a criar padrões de funcionamento do mundo e esses padrões passam a formar um paradigma [1], ou seja, um modelo ou um pressuposto de como esse mundo tende a funcionar; tudo baseado nas evidências que você colheu, dentro do campo acessível aos seus sentidos e à sua lógica construída até então. Entretanto, em um determinado momento da sua caminhada, você se depara com uma evidência que está além das possibilidades de explicação existente dentro dos seus paradigmas. É nesse momento que você se coloca diante de um abismo.

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Eis o abismo

O abismo representa a distância entre o conhecimento que você formulou até então e um passo adiante para o conhecimento mais próximo possível da verdade universal. Permita-se fazer uma imagem mental: você caminhou na estrada e chegou na beira de um abismo bastante profundo; do outro lado você enxerga a continuação da estrada, seguindo infinitamente, ou até o próximo abismo. Você aqui tem duas opções:1) voltar e tentar encontrar um caminho mais fácil; 2) construir uma ponte que te leve à continuação da estrada. A primeira opção significa rejeitar as novas evidências, associá-las a erros e mentiras, e continuar do lado de cá do abismo, seguindo os paradigmas estabelecidos. Já a opção 2 representa a construção do conhecimento necessário para atingir o lado de lá do abismo de maneira satisfatória, permitindo-se compreender plenamente aquela realidade apresentada daquele lado. É preciso sabedoria para escolher entre as opções 1) e 2), uma vez que se a ponte não for consistente o suficiente, ela quebra e te derruba para as profundezas do abismo e, após a queda, a subida de volta até qualquer uma das partes da estrada, do lado de lá ou de cá, torna-se muito mais árdua.

A partir dessa simples imagem é possível compreender a importância da construção de uma ponte sólida, ou seja, do conhecimento, sobre o abismo para que ampliemos nossa percepção do mundo. Quando o conhecimento construído é compatível com o caminho a ser percorrido em direção à verdade universal, o abismo é cruzado e o peregrino torna-se mestre, capaz de seguir seu caminho à frente e de construir novas pontes sobre novos abismos a cada nova evidência; ou ele pode auxiliar outros peregrinos caminhantes a construir suas próprias pontes sobre o mesmo abismo. Nesse ponto fica interessante o paralelo com a mitologia bíblica de Moisés que, já conhecendo a continuação do caminho do outro lado do abismo, volta para conduzir o povo hebreu, escravo da ignorância representada pelo faraó, a cruzar o abismo [2]. Moisés recebeu a instrução de Jeová (YHVH [3]), ou seja, ele construiu seu conhecimento a partir de sabedoria mais próxima da verdade universal, e retornou para ser o líder disciplinado que conduziria o povo hebreu, escravizado pela ignorância, até o conhecimento libertador. A passagem pelo mar Vermelho representa a metáfora do cruzamento do abismo, cuja ponte foi a abertura do mar a partir do comando de Moisés, portador do cajado – símbolo da autoridade que um mestre detém. Uma vez aberto o mar, forma-se a ponte que permite a travessia até a continuação do caminho. Aqueles que não estavam devidamente preparados para a travessia ou que estavam presos aos paradigmas do caminho anterior ao abismo – os egípcios a mando do faraó – foram tragados pelo mar quando este retornou à sua composição natural, ou seja, caíram no abismo da ignorância.

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Moisés construiu uma ponte sobre o abismo

Não é fácil encontrar material de estudo de qualidade para que a ponte fique firme e permita a travessia com segurança. Moisés recebeu o conhecimento diretamente da sabedoria de Yaveh/Jeová, representando que o conhecimento que Moisés possuía e transmitia era compatível, dentro de suas limitações, com a verdade. Mas nós estamos expostos a uma tremenda quantidade de informação, que frequentemente confunde-nos quanto à sua confiabilidade. Desde o advento da escrita até hoje, a quantidade de informação que acumulamos cresce exponencialmente. Quando falamos especificamente em conhecimento Espiritualista, encontrar informação confiável para seguir a jornada em segurança é completamente desafiador. O Espiritualismo é composto por vertentes religiosas e não-religiosas que concordam e contradizem-se em diversos aspectos. Até mesmo dentro de uma vertente específica a amplitude de espectros de assuntos permeados é grande e, possivelmente, composta de contradições. A dificuldade encontra-se na subjetividade do assunto e na constante associação de espiritualidade e religião, o que implica na condução da transmissão do conhecimento completamente atrelada a dogmas e “verdades” não passíveis de contestação.

Mas então, como construir uma ponte firme e segura, embasada em conhecimento sólido, para que cruzemos o abismo com segurança? A ciência encontrou no método científico uma fórmula menos passível de erros para que a busca pelo conhecimento ficasse o mais livre possível de amarras dogmáticas e interferências externas ao sistema investigado. O método científico não é perfeito, mas é o melhor que conseguimos até o momento, sendo notável o progresso científico-tecnológico atingido desde o seu advento. Entretanto, o método científico ainda não abrange tópicos Espiritualistas, uma vez que esse método foi desenvolvido para investigação de fenômenos materiais. Então, como avaliar com segurança o conhecimento Espiritualista que nos é disponibilizado aos montes? Essa não é uma pergunta fácil de ser respondida. Cada corrente de pensamento Espiritualista que surge vem atrelada a uma tendência de seus seguidores (e muitas vezes de seu criador) a apresentar um caráter dogmático, pela natural proximidade entre religião e espiritualidade. Não que ambos sejam assuntos completamente diferentes, mas a percepção que nós temos de religião ainda está associada a fechar-se para uma verdade exclusiva e incontestável, perdendo a chance de formular questionamento e realizar investigação dos fenômenos, base da construção de qualquer conhecimento.

pontos de vista
Diferentes pontos de vista

Se assumirmos que a verdade é universal, ou seja, que a realidade existe e acontece independentemente da percepção que temos dela, a crença dogmática e fechada em um determinado sistema religioso perde totalmente o sentido, uma vez que há milhares de outras crenças dogmáticas que, superficialmente, disseminam informações desde ligeiramente diferente até completamente opostas à crença em questão. Dentro desse contexto, a reunião e comparação da maior quantidade possível de sistemas religiosos cria um panorama o mais próximo possível do que conseguiríamos compreender da verdade universal, já que esse método nos permite convergir para o ponto em comum entre todos os sistemas e religiões (ou de vários deles). É na essência dos ensinamentos religiosos que se encontra o material mais sólido para construir a ponte que atravessa o abismo que separa a estrada do dogma e do engodo, da estrada do caminho da busca da religiosidade [4] e do progresso espiritual. Se a realidade existe independentemente da percepção que temos dela, seria lógico encontrar traços e comum dessa realidade observados de diversos pontos de vista diferentes, registrados nas mais variadas épocas e culturas. Em posse dessas convergências, a análise dos diferentes blocos usados para a construção da ponte fica mais objetiva, permitindo-nos optar por aqueles que, compartilhando uma essência, encaixam-se entre si. Nesse ponto, pode parecer que há contradições entre o uso da essência do paradigma antigo para o alcance do novo. Mas é preciso lembrar que o progresso do conhecimento não acontece em saltos, uma vez que a construção do novo paradigma não é, necessariamente, a contradição do antigo, mas a expansão dele. Ou seja, todo aquele conhecimento coletado durante a jornada na estrada das diretivas da vida vai ser utilizado como alicerce da ponte sobre o abismo para a colocação dos blocos de nova informação. A completa negação de tudo o que foi coletado na jornada ou a tentativa de alcançar um conhecimento completamente diferente das possibilidades da percepção até então, como já pontuado, levam à meia volta e permanência na estrada antiga ou à queda da ponte em construção.

Mesmo munidos do alicerce supostamente seguro formado pela compreensão do paradigma antigo, a dificuldade em definir se a travessia do abismo está sendo guiada por um Moisés ou se nos transformaremos em escravos do faraó continua existindo. Entretanto, o questionamento constante de toda a informação que chega até nós e o debate e acesso a todo tipo de conhecimento, mesmo que contrário ao que acreditamos no momento, são fatores vitais para a construção da sabedoria e blocos importantes para a construção de uma ponte rígida sobre o abismo da ignorância.

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[1] Segundo o fílosofo da ciência Thomas Khun no livro A Filosofia das Revoluções Científicas, “paradigmas são as realizações cientificas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornece problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”. Peguei emprestado o termo associado a padrões científicos para aplicação no dia-a-dia.

[2] Êxodo, Antigo Testamento da Bíblia.

[3] YHVH, transaliteriação das letras hebraicas Yod-He-Vav-He ou o Tetragrama Sagrado.

[4] Religiosidade aqui foi usada como ao sentimento de busca por algo além na nossa percepção ou compreensão imediata, independende do sistema filosófico – ou religião – usado para a manifestação dessa religiosidade.

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

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