Kardec, queima todos eles!

Vou iniciar esse texto confessando que tenho pouca vivência “social” dentro de centro espírita dito kardecista. Meu interesse maior sempre foi, inicialmente, obter alguma comprovação pessoal empírica sobre a possibilidade real de existência dos fenômenos espirituais, o que consegui frequentando um templo de Umbanda como consulente. Passada a fase do “será que espírito existe mesmo?” e do “será isso aqui éluz realmente causado por uma inteligência externa ao médium?” eu passei a me interessar pelos mecanismos dos fenômenos em si e pelo leque de possibilidades de manifestações espirituais encontradas ou não em bibliografia disponível. A partir daqui eu já não conseguiria experimentar em um templo de umbanda ou em qualquer templo/centro cujos ritos e trabalhos já estivessem cristalizados e uma doutrina. Foi assim que me uni a um grupo de pessoas tão curiosas e motivadas quanto eu a compreender a espiritualidade com foco em auxílio espiritual, livre de amarras religiosas, mas sempre respeitando a religiosidade.

Toda essa curiosidade sobre o plano espiritual motivou-me a recorrer à bibliografia espiritualista existente, sendo inevitável a leitura das obras espíritas escritas por Allan Kardec e psicografadas por Chico Xavier, além de outros autores que compõem a base bibliográfica de muitos centros Espíritas. Aprendi a compreender e a respeitar esses autores baseada em minhas experiências de leitura e interpretação, aprendendo sempre em espiral. Por exemplo, não compreendia muito O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, em uma primeira leitura. Após ler outras fontes, como livros com temática de Umbanda e outros temas espiritualistas, além de algumas experiências práticas, uma segunda leitura d’O Livro dos Espíritos já era diferelivrosnte; eu passava a enxergar informações que não tinha observado na primeira leitura. Com essa dinâmica, o conhecimento foi sendo construído aos poucos (e ainda está em processo de construção…). Entretanto, além dos livros recomendados e indicados para compreensão do espiritismo, li alguns autodenominados, porém não reconhecidos, como livros espíritas (os tais dos “anti-doutrinários”), além de livros de outras vertentes espiritualistas. TODAS as leituras que fiz, sem exceção, foram construtivas; algumas delas me mostraram o caminho a seguir e outras, por onde eu não deveria me aventurar. Cada livro, texto, opinião com os quais tive contato representa um tijolinho que tem me ajudado a construir o conhecimento que estou me esforçando para adquirir.

fogo
Em 1861, o bispo de Barcelona queimou obras espíritas. Tal ato foi denominado auto da fé de Barcelona por Allan Kardec.

Como eu disse no comecinho do texto, não tenho uma vivência “social” espírita, ou seja, não tenho experiência em trabalhar ativamente em um centro dito kardecista, o que me leva a frequentar alguns ambientes kardecistas em grupos e fóruns de internet por uma curiosidade quase sociológica de saber como a “doutrina” é vivenciada pelas pessoas. Em uma página de Facebook com temática espírita eu me deparei com uma pequena discussão sobre o que fazer com os livros “anti-doutrinários”. As pessoas ali foram unânimes em achar uma solução fácil e rápida: queime-os! Sim, a solução apontada ali era queimar os livros! A justificativa era que as pessoas precisam que alguém tome conta do que elas leem e que o espiritismo está sendo corrompido por esses livros “anti-doutrinários”. Imediatamente recordei-me do auto da fé de Barcelona e fiquei verdadeiramente triste em constatar como a história tende a se repetir de uma maneira irônica. Para quem não sabe, o auto da fé de Barcelona, foi o nome dado por Allan Kardec a um ato autoritário e criminoso do clero espanhol, mais especificamente do bispo de Barcelona na época, que, em 1861, queimou trezentos volumes e brochuras sobre espiritismo que estavam sendo legalmente importadas da França, sob a seguinte alegação: “A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outros países” [1]. Pois é…

[1] Kardec, A. O resto da idade média – Auto da fé das obras espíritas em Barcelona. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos, ano 4, novembro, 1861.

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

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