Sabedoria e livre-arbítrio – Estamos andando em círculos

sabedoria

No texto anterior, abordamos a relação entre livre-arbítrio e conhecimento. Agora, vamos elaborar um breve ensaio sobre os mecanismos envolvendo as nossas tomadas de decisão e suas consequências para o nosso desenvolvimento espiritual, além de apontar a importância da Sabedoria.

religioesAo tomar contato com várias filosofias e doutrinas espiritualistas, nos deparamos com conceitos de Espírito, Eu Maior, Eu Sou, Supraconsciência, Eu-Crístico, etc., quase sempre pontuando sobre a necessidade de domínio do Ego ou do Eu manifestado para atingir um estado de Iluminação, Ascenção, Consciência Crística, Quinta Dimensão, Evolução, etc. Deixando de lado as diferenças e analisando somente as semelhanças, as filosofias comprometidas com a real evolução do ser humano apenas traçam um caminho a ser percorrido.

Respeitando as diferenças culturais do homem encarnado, as diferentes filosofias, doutrinas ou religiões bebem da fonte da Verdade Universal e traduzem-na em linguagens compreensíveis para nós, seres que desenvolveram a comunicação baseada em símbolos.

tirinha
Perguntas. Sempre.

Assumimos, nesse contexto, novamente, que o Universo funciona com regras e Leis que atuam independentemente da nossa consciência sobre elas ou o que aqui chamamos de Verdade Universal. Daqui onde nos encontramos – manifestados no plano material – nós investigamos o funcionamento das Leis naturais e, de acordo com as conclusões que delineamos, interagimos com as Leis de modo a tentar atingir os resultados que queremos. Observamos, questionamos, formulamos hipóteses, experimentamos e tiramos conclusões. Seja dentro ou fora do meio científico. De maneira metódica ou empírica.

Você pode estar pensando: “nossa, Lulu, que mistureba você faz com ciência e religião…!”. Pois é, talvez elas não sejam assim tão opostas quanto muitos fazem parecer.

Com o passar do tempo, formulamos métodos para compreender e medir as Leis que atuam sobre a matéria e que funcionam de maneira independente das nossas crenças ou não crenças nelas. Você não vai voar se deixar e acreditar na gravidade.

microscopia
Floco de neve observado através de Microscopia Eletrônica de Varredura.

Dentro do paradigma materialista em que vivemos, toda Lei que age sobre aquilo que tocamos, ouvimos, tateamos, vemos ou saboreamos, é passível de ser medida e entendida por nós. Aquilo que não alcança os nossos sentidos objetivos é medido através de tecnologia criada para ampliar aquilo que os mesmos sentidos não alcançam pela limitação que nosso corpo nos impôs. Um microscópio, por exemplo, mimetiza a nossa visão em resoluções que nossos olhos não são capazes de experimentar, mas não deixa de mimetizar uma ultravisão. Os dados gerados são sempre transformados em símbolos inteligíveis pelos nossos sentidos objetivos e compreensíveis pelo nosso cérebro físico. A Ciência cria um mapa da existência material; ela nos mostra como sobreviver.

As religiões lidam com os nossos sentidos ciencia_e_religiaoabstratos. Sentidos que, muitas vezes, sequer lembramos que temos. Elas investigam Leis que atuam sobre nossa existência Espiritual. E aqui, quando falo religião, eu me refiro a filosofias seriamente comprometidas em trazer e reunir conhecimento libertador, porque é sobre as religiões que aprisionam que são erguidos os argumentos de oposição ciência versus religião.

As religiões não lidam com nosso corpo, mas sim com nosso Espírito. A linguagem utilizada é normalmente distinta do uso de somente símbolos que se comuniquem com o cérebro. A religião usa a linguagem como ferramenta de comunicação com o cérebro para transmitir mensagens de e para além dele. Filosofias comprometidas com a evolução dos homens usam a linguagem dos sentimentos para elevar o Espírito. É a união das duas vias de linguagem – a racional e a emocional – que torna a mensagem a ser transmitida muito mais completa. A religião forma, portanto, um mapa da existência espiritual a ser percorrido enquanto o Espírito encontra-se em interação com o plano material. Ela nos mostra como viver.

mapa
Às vezes, temos mais de uma possibilidade de caminho entre um ponto e outro.

Quando vamos viajar entre dois lugares, fazemos uso de um mapa, que mostra todos os caminhos possíveis entre um ponto geográfico e outro. Nosso conhecimento em leitura cartográfica, pontos cardeais, conhecimento de placas de trânsito ou até mesmo da tecnologia de um GPS faz toda a diferença quando percorremos o caminho. Mas não basta conhecer o mapa, temos que saber colocar o nosso conhecimento em prática. Para que haja eficiência na viagem, ou seja, para gastar menos combustível ou para chegar em tempo hábil até o destino, devemos saber escolher a melhor rota a ser percorrida. Isso é sabedoria. Caso contrário ficaríamos viajando na base da tentativa e erro, andando a esmo até quem sabe um dia, por sorte, encontrarmos o destino que predeterminamos, correndo o risco de andar em círculos por um bom tempo.

stairwayO mesmo raciocínio pode ser feito quando queremos chegar de um grau espiritual a outro. É necessário que conheçamos a rota a ser percorrida. É útil termos um mapa em mãos, mostrando qual o caminho mais eficiente a ser seguido. É isso que a religião faz. Via de regra, religiões são mapas experimentados previamente por outras pessoas, cujo caminho indicado levou essas pessoas ao objetivo final de ascensão espiritual, ou seja, ao objetivo de chegar ao grau espiritual seguinte.

emoções
O estado emocional do corpo físico é importante na vivência da religiosidade.

É importante salientar que não é a religião (ou filosofia) em si que leva ao objetivo final, mas sim a vivência da religiosidade por ela indicada. O mapa que ela nos fornece é percorrido com a emoção e cabe a nós fazer uso da vivência verdadeira daqueles ensinamentos para atingir estados de consciência direcionados pelo estado emocional do corpo físico. Frequentar templos, grupos, ou simplesmente realizar práticas apenas porque isso está indicado em algum manual de instruções (ou livro sagrado) de determinada religião ou filosofia não faz efeito. É necessário lembrar que a comunicação feita pelos manuais de instruções das religiões é feita em linguagem objetiva, mas a mensagem é emocional.

Tendo isso em mente, percebemos que a religiosidade, assim como a Ciência, também nos guia pelas Leis que regem o Universo. Também nos guia pela Verdade Universal. Todavia, as Leis sobre as quais a religião trata não são Leis que determinam as partículas da matéria, mas sim Leis que regem a existência. Dentro de nossa limitação de compreensão, acabamos traduzindo essas Leis, de maneira a caber em nossos paradigmas. Aqui na Terra, compreendemos as Leis da existência como leis morais, éticas e aquelas que determinam nossa jornada mental e espiritual. Talvez porque aqui na Terra, por enquanto, sejam esses os aprendizados que precisamos absorver de nossas experiências.

owlPortanto, não basta conhecer o caminho espiritual a ser percorrido; é necessária a sabedoria para que saibamos tomar as decisões certas para percorrermos o caminho de modo a, no final da jornada, atingirmos o objetivo traçado por nós mesmos. Enquanto a caminhada perdura, a aquisição de conhecimentos sobre o caminho torna-se indispensável para termos liberdade de escolha. Isso significa que no estágio em que nos encontramos temos livre-arbítrio para escolher a consequência final, através do bom uso das causas.

 

A Lei de causa e efeito

mountain_view
Conhecer um pouco da Verdade Universal seria como subir em uma montanha e observar, com vista privilegiada, o caminho a frente. Quando ele tivesse que ser percorrido, seria mais fácil ultrapassar os obstáculos, já visualizados anteriormente.

Em posse do conhecimento sobre um panorama geral da Verdade Universal – dentro das nossas limitações óbvias aqui neste plano – e tendo adquirido esse conhecimento através de diversas existências experimentando erros e acertos, nós – um dia – conseguiremos fazer uso das Leis a favor de um Todo para definir um objetivo maior para, depois, atingi-lo. Para alguém que ainda não adquiriu conhecimento suficiente sobre as Leis Universais não é possível controlar os efeitos dos atos, mas é possível controlar a causa, pois esse indivíduo não conhece as regras que determinam o estabelecimento do efeito a partir da causa. Entretanto, conhecendo as Leis, é possível prever os efeitos das causas, partindo, então, da determinação da consequência, para somente depois trabalhar nas causas. Quanto mais domínio temos sobre as Leis que determinam a causalidade, mais fielmente conseguimos prever as consequências antes da ação, dando-nos a chance de escolher previamente a ação.

math

Para tornar o parágrafo anterior mais claro, vou usar novamente uma analogia com as Leis que regem a matéria. Uma engenheira aeroespacial ao planejar o lançamento de um satélite precisa saber qual o objetivo do lançamento antes de determinar os seus parâmetros. Somente em posse das informações da localização final do satélite na órbita da Terra é que ela começa a planejar local de lançamento, velocidade de propulsão e rota a ser percorrida. Eu, que não sou engenheira, não saberia o que fazer com a informação de localização final do satélite em mãos. É provável que, se eu tivesse recursos, estabeleceria um critério de tentativa e erro (controlando a ação) até – quem sabe um dia – o satélite pudesse ser lançado. A engenheira só consegue realizar o lançamento do satélite, porque ela tem acesso ao conhecimento necessário para isso. A engenheira determina primeiro o efeito (localização final do satélite) e, em posse do conhecimento das Leis da física, calcula a rota e determina a causa (parâmetros de lançamento).

Em posse dos conhecimentos técnicos necessários, a engenheira consegue colocar qulaquer satélite em órbita. Porém, o que ela precisa para tomar a decisão sobre lançar ou não um satélite militar cuja função seria apenas dizimar uma nação inimiga?

As Leis que regem o nosso Universo são amorais e seu uso pode servir a qualquer propósito. Todavia, quando nos dizem que nosso objetivo aqui é o de evoluir espiritualmente, ascencionar, atingir a quinta dimensão, etc., seria um sinal de que o uso das Leis tem um propósito. Se levarmos esse raciocínio para um ponto de vista mais amplo, talvez o próprio Universo tenha um curso a seguir em direção a um objetivo já traçado. Ir a favor da trajetória maior traçada para o Universo é Sabedoria (sim, agora com S maiúscula).

A Sabedoria que estamos buscando através de tantas experiências nada mais é do que aprender a tomar as decisões para caminhar em direção àquele objetivo definido para o próprio Universo. Seria, portanto, a Sabedoria algo muito maior do que nós, indivíduos, e ignorar ou contrariar esse sentido apenas nos coloca em estado de estagnação. Usar o livre-arbítrio para tomar decisões contrárias à direção da correnteza que o Universo percorre, seria gastar tempo e energia.

jesus-moises-hamomet-ii
Será que é isso que eles fariam?

Voltando à questão moral da engenheira e respondendo à pergunta. A engenheira precisaria de Sabedoria para tomar a decisão sobre lançar ou não o satélite militar.

Nossas questões materiais que dão norte a o que conhecemos por moral e ética estão tão distantes da Sabedoria, que precisamos de sentidos além dos objetivos para ter acesso a algo que nos direcione a ela. A religiosidade nos dá acesso a esses sentidos, que nos fornecem meio para formar a base para tomar decisões que nos levem a favor da correnteza do Universo.

Através da religiosidade, acessamos, mesmo que confusa e rapidamente, o mapa do labirinto da nossa existência. Para que quando nos depararmos com uma encruzilhada, saibamos exatamente qual caminho escolher para atingir, lá no final, a saída.

rotatoria
É como se entrássemos em uma rotatória e não soubéssemos sair. Estamos andando em círculos…

No fim das contas, estarmos presos na roda das encarnações significa que não sabemos ainda usar as Leis de modo a escolher corretamente os caminhos a serem percorridos. Significa que fazemos continuamente escolhas erradas, baseadas na tentativa e erro ou em objetivos contrários ao objetivo maior do Universo. Se quisermos atingir o patamar seguinte, precisamos nos dedicar a conhecer melhor as Leis e adquirir Sabedoria para usá-las. Os mapas estão aí a nossa disposição.


Gostou do texto? Compartilhe nas suas redes sociais.

fb  Curta nossa página no Facebook!


 

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *