Sobre médium

Olá, caro(a)s leitore(a)s!

Após a apresentação do blog e do nome Papo de Médium, nada mais oportuno do que iniciarmos o nosso papo falando sobre mediunidade. Acredito que poucas são as pessoas que nunca ouviram falar em médiuns e/ou mediunidade. Dentro e fora das religiões e filosofias espiritualistas a palavra médium é utilizada, principalmente no Brasil, onde temos uma popularização do espiritismo e de religiões espiritualistas. É importante notar que 2% da população brasileira autodeclara-se espírita e 0,3%, umbandistas ou candoblecistas, segundo o censo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2010 – ver no gráfico abaixo também a comparação de dados com o censo de 2000.percentual-de-grupos-religiosos-no-brasil-censo-2010 Além disso, é bastante frequente encontrarmos em cultos de religiões de raiz africana, assim como em centros espíritas, pessoas provenientes de outras religiões que, em seus dogmas, não preveem ou não aceitam a prática ou mesmo existência da mediunidade. Fora isso, acredito que boa parte das pessoas tem ao menos aquela tia espírita ou já assistiu alguma novela na TV onde a mediunidade era tema. Se você não é espírita, nem adepto de religiões de matriz africana, não tem nenhum parente que é e não assiste novelas, eu tenho certeza que você já, pelo menos, ouviu falar do médium Chico Xavier. Viu? Você já foi apresentado ao tema!

Ok, Ok… então, mas o que é um médium? Segundo Allan Kardec, n’O Livro dos Médiuns (1), médium é “toda pessoa que sente, em um grau qualquer, a influência dos espíritos”, simples assim. E ele completa que “esta faculdade é inerente ao homem e, por consequência, não é  privilégio exclusivo (…). Todavia, usualmente, esta qualificação não se aplica senão àqueles nos quais a faculdade medianímica está nitidamente caracterizada, e se traduz por efeitos patentes de uma certa intensidade, o que depende, pois, de um organismo mais ou menos sensível”. Ainda no mesmo livro, Allan Kardec separa os médiuns em nove principais categorias: “médiuns de efeito físico, médiuns sensitivos ou impressionáveis, audientes, falantes, videntes, sonâmbulos, curadores, pneumatógrafos, escreventes ou psicógrafos”. Não vou aqui entrar em detalhes sobre todas essas categorias mediúnicas; quem tiver interesse pode consultar O Livro dos Médiuns (você poderá encontrá-lo em .pdf aqui).

Jeanne au bûcher
Joana D’Arc

Médiuns são meios de comunicação entre encarnados (vivos) e desencarnados (espíritos de pessoas falecidas) e a utilização da mediunidade, também denominada canalização por algumas vertentes, não é um fenômeno recente. Ao longo da história da humanidade é possível notar oráculos, xamãs ou profetas e sua influência em sociedades ocidentais e orientais (2). No ocidente, bem antes da codificação do espiritismo por Allan Kardec, a capacidade e possibilidade de comunicação com pessoas desencarnadas já era conhecida, ficando, entretanto, restrita a círculos esotéricos e iniciáticos fechados ou secretos, uma vez que a possibilidade de acusação de práticas de bruxaria (passível de perseguição e até pena de morte) seria inevitável em alguns momentos. Um conhecido exemplo é o de Joana D’Arc (1412-1431), hoje reconhecida santa pela Igreja Católica, foi guiada por “vozes” que levaram-na a lutar na Guerra dos Cem Anos. Após a sua captura pelos combatentes inimigos, foi julgada pelo poderoso Tribunal da Inquisição e condenada à morte por heresia e outras inúmeras acusações; foi queimada em praça pública em 30 de maio de 1431, aos 19 anos de idade.

Apesar de hoje ninguém mais ser condenado à fogueira por assumir a mediunidade, esse assunto ainda é um tanto controverso fora dos círculos espiritualistas. Muitos não acreditam na possibilidade de comunicação com espíritos (por não acreditarem na possibilidade da consciência ser externa ao corpo físico); outros, guiados por dogmas religiosos, até creem na existência de espíritos, mas não aceitam a possibilidade de comunicarmo-nos com eles, assumindo que qualquer tipo de manifestação desse tipo é influência de “demônios” sobre as pessoas. Infelizmente, não tenho (ainda) ferramentas para validar a hipótese da existência da consciência extracorpórea e a comunicação com espíritos, mas reuni evidências empíricas o suficiente para me convencer da veracidade destas informações. Munida dessa constatação, fico triste, de certa maneira, ao perceber que a influência dos espíritos sobre as pessoas encarnadas, mesmo não médiuns, pode ser ostensiva e, na maioria das vezes, prejudicial, principalmente para os que aqui estão no plano físico. O simples conhecimento dessa possibilidade já evitaria diversos casos de más influências de espíritos sobre encarnados.

religiões
É tudo a mesma coisa

E até compreensível que o assunto mediunidade seja tabu entre pessoas que não frequentam círculos espiritualistas. Mas ele também gera controvérsias até entre aqueles que aceitam a possibilidade da dita comunicação com os mortos. É umbandista que diz que o que foi descrito por Allan Kardec não representa o que ocorre na umbanda; espírita que não concorda com a maneira com que os trabalhos são executado na umbanda; movimentos new age que dizem que mediunidade e canalização são coisas diferentes; linhas de umbanda que rejeitam manifestações de entidades de linhas diferentes. Mas é importante lembrar que essas diferenças e separações são criadas aqui, no plano físico. Do lado de lá é tudo uma coisa só. Aqueles espíritos que estão interessados na evolução dos homens não estão preocupados se irão se manifestar próximos a um congar com imagens, sem imagens ou em uma mesa. Eles se manifestarão onde tiverem trabalhadores com a mesma intenção e interesse nas mesmas finalidades que eles.

Até aqui você deve ter compreendido que o médium intermedeia a comunicação entre encarnados e desencarnados, que eles sempre existiram e que podem não ser bem compreendidos até hoje pela sociedade. Mas o que faz um médium? A capacidade mediúnica não está diretamente ligada a alguma religião ou atividade específica; ela é inerente ao ser humano. Muitos apresentam essa capacidade com intensidade maior, outros com menor intensidade; alguns nunca vão sentir a influência de um espírito (e o fato de não sentir não significa que ela não exista). Quando um médium está associado a uma corrente espiritualista de cunho religioso como o espiritismo ou umbanda, por exemplo, ele pode exercer diversas atividades desde receber informações e orientações de espíritos amigos, ajudar no auxílio de espíritos que estão perdidos do lado de lá, até servir de veículo para a manifestação de espíritos guias que darão orientação a pessoas que procuram por ajuda. Vai depender muito do tipo de trabalho no local em que o médium está se desenvolvendo, do tipo de mediunidade que o médium apresenta e dos guias e orientadores que acompanham aquele indivíduo. O médium pode também exercer o intermédio entre espíritos e encarnados sem estar, necessariamente, ligado a alguma vertente religiosa ou também pode não trabalhar a sua capacidade mediúnica (se ele conseguir, dependendo da intensidade e da capacidade de controle sobre a própria mediunidade). Lulu, eu acho que sou médium, o que devo fazer? Eu diria para você procurar um Centro Espírita ou de Umbanda, lá eles saberão ajudá-lo(a) e orientá-lo(a) sobre o seu desenvolvimento e melhor uso das suas faculdades. Mas, Lulu, e se eu não quiser ser médium, vou ser punido de alguma forma? Não. Você tem a liberdade de escolha, ninguém é “punido” por não trabalhar a mediunidade. Entretanto, eu sou suspeita, pois considero a mediunidade uma escola riquíssima com possibilidade imensa de crescimento e desenvolvimento pessoal; seja cedendo o corpo e a mente para auxiliar aqueles que precisam de apoio espiritual ou aprendendo com as comunicações que ocorrem através de seu corpo. Os espíritos sempre têm algo a nos ensinar, seja com exemplos a serem seguidos ou não. Além disso, o exercício da mediunidade também nos presenteia com o autoconhecimento, já que precisamos conhecer quem somos para compreender onde começa e onde termina a manifestação de nossa própria consciência para diferenciá-la de uma consciência externa se comunicando através no nosso corpo físico.

Se você gostaria de saber mais sobre médiuns e mediunidade, eu recomendo fortemente a leitura do Livro dos Médiuns, já citado neste post. Se você não entende muito sobre espíritos e gostaria de mais informações, a leitura d’ O Livro dos Espíritos (download aqui) pode te auxiliar.

Fiquem bem, querido(a)s!

 

REFERÊNCIAS:

(1) Kardec, A. O Livro dos Médiuns. Tradução de Salvador Gentile. Araras, SP, IDE, 85 ed, 2008.

(2) Moreira-Almeida, A. Pesquisa em mediunidade e relação mente-cérebro: revisão das evidências. Rev Psiq Clín, v. 40, n. 6, p. 233-240, 2013.

 

Lulu está se dedicando em tempo integral para formar-se cientista e está estudando nas horas vagas para melhor compreender os fenômenos espirituais e mediúnicos. Ela escreve neste blog para tentar compartilhar um ponto de vista mais racional sobre o espiritualismo e suas correntes. Lulu está também no Facebook (Lulu Papo de Médium) e no Twitter (@Lulu_PdM).

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